50 ANOS A VERTEBRAR CRISTANDADES
O Movimento dos Cursos de Cristandade nasceu em Palma de Maiorca, no ano de 1949. Foram seus iniciadores Eduardo Bonnín e um grupo de padres e leigos, militantes da Acção Católica, apoiados pelo zelo pastoral de D. João Hervás, Bispo diocesano. Eram difíceis, a vários níveis, aqueles tempos do pós-guerra. A vivência cristã, condicionada por um tradicionalismo anquilosado, era considerada mais própria do sexo feminino, enquanto uma grande maioria dos homens se mantinham afastados da Igreja.
Os pioneiros dos Cursos, conscientes da realidade social e ardendo em zelo pela vivência do fundamental cristão, conceberam um ambicioso plano pastoral, que libertasse a religião católica do ritualismo sem alma, esclarecesse doutrinalmente a fé dos praticantes, atraísse os homens à comunidade eclesial e levasse os cristãos a testemunhar a fé pela palavra e pelo exemplo de vida.
O plano de evangelização teve como núcleo central um curto mas intensivo curso de três dias, precedido de um tempo de preparação designado pré-curso e seguido de um quarto dia, isto é, do tempo posterior ao curso propriamente dito. O Curso centra-se no essencial da mensagem cristã; desenvolve-se segundo uma metodologia testemunhal e vivencial; adopta um estilo jubiloso de proclamar a esperança, tendo como objectivo levar o cursista à conversão e à adesão global a Cristo; apoia-se no poder da oração dos que fazem o Curso e da multidão dos que, estando fora, se sentem em comunhão com eles.
Os êxitos do projecto evangelizador foram notórios e em 1953 os Cursos de Cristandade começaram a expandir-se. Em 1960 entraram em Portugal. O primeiro Curso, orientado por uma equipa da Diocese de Vitória, realizou-se em Fátima. E não tardou que chegasse também a vez da Arquidiocese de Évora. Preparado e encomendado à protecção de Nossa Senhora com uma peregrinação a Fátima a pé, o primeiro Curso de homens realizou-se, em Vila Viçosa, de 3 a 6 de Janeiro de 1962. E foi um sucesso. Em pouco tempo, instalou-se na Arquidiocese um clima de entusiasmo apostólico que levou à rápida realização de muitos outros cursos. Porém, a essa primeira fase de euforia seguiu-se um período que poderíamos considerar de hibernação, nos anos setenta e oitenta, durante o qual a actividade dos cursos cessou quase por completo, para depois ressurgir de novo e de forma gradual até entrar no ritmo que se mantém actualmente: três cursos de homens e três cursos de mulheres, por ano. Com a realização do próximo, que é o Curso Jubilar, contabilizam-se na Arquidiocese 255 Cursos de Cristandade (144 de homens e 113 de mulheres), tendo passado por eles mais de 5 000 pessoas.
Se compararmos a sociedade dos anos sessenta, quando se iniciaram os cursos, com a sociedade actual, facilmente concluiremos que são acentuadas as diferenças entre uma e outra, tanto a nível eclesial como a nível sócio-político. Na cena política, a maior mudança ficou a dever-se à transição do regime ditatorial para o regime democrático, com a subsequente alteração do ambiente sócio-cultural. A nível eclesial, o II Concílio do Vaticano abriu novos horizontes à vivência cristã. No âmbito da liturgia, além do uso do vernáculo, a reforma litúrgica proporcionou uma mais abundante leitura da Sagrada Escritura e incentivou a participação activa de todos os membros da assembleia celebrante. Cresceu, por parte dos fiéis, a consciência da responsabilidade baptismal e intensificou-se a participação dos leigos no sector da liturgia, da evangelização, do governo e no exercício da caridade. A própria Igreja reconhece e solicita a corresponsabilidade dos leigos na vida das comunidades. Elevou-se consideravelmente o nível de informação e de formação doutrinal das populações em geral. Com a colaboração dos Cursos de Cristandade, aumentou o número de homens que participam e se envolvem nas iniciativas das comunidades cristãs.
Contudo, estamos muito longe de atingir o ideal. A seara continua a ser grande e poucos os trabalhadores. Não podemos cansar-nos de pedir ao Senhor da seara que mande para a Sua seara: ministros ordenados, casais cristãos, homens e mulheres consagrados ao serviço do Reino, profissionais competentes e bem integrados que dêem testemunho de Cristo no mundo do trabalho, da educação e da política.
Embora as carências sejam uma constante, no entanto, as exigências da sociedade actual são diferentes das que se faziam sentir há cinquenta anos. E o Movimento dos Cursos de Cristandade, se quiser permanecer fiel ao carisma fundacional e à finalidade primeira de vertebrar cristandades, tem que estar atento às transformações operadas no nosso meio e munir-se da elasticidade suficiente para se adaptar aos novos tempos. Antes de mais, tenha presente que, para garantir o sucesso apostólico, não se pode descurar a qualificação dos dirigentes. À Escola de Responsáveis compete dosear e actualizar os conteúdos e a metodologia da formação, tendo em mente a admoestação que o papa Bento XVI fez aos Bispos de Portugal, em Fátima: a mera enunciação da mensagem não chega ao mais fundo do coração, não toca a pessoa. Importa, pois, garantir a fidelidade ao método testemunhal e promover o empenho missionário que leve a procurar as ovelhas desgarradas e a afervorar os que se deixaram cair na rotina.
Cada Curso de Cristandade é, sem dúvida, um momento de graça e uma forte experiência de vida cristã, que vence as resistências interiores, transforma os corações e aponta novos rumos de vida cristã. Os eloquentes e repetidos testemunhos dos cursistas aí estão a demonstrá-lo constantemente. Mas o Curso, só por si, não é suficiente, para garantir a perseverança da vida em graça, o aprofundamento da fé e a inserção na comunidade paroquial, objectivos fundamentais do pós-curso, período em que se exige a colaboração activa dos párocos e dos responsáveis locais na condução das ultreias, no acompanhamento espiritual dos cursistas e na atribuição de responsabilidades apostólicas, dentro e fora da comunidade paroquial. O verdadeiro sucesso do curso depende da fidelidade ao compromisso inicial e de um pós-curso bem estruturado, que fortaleça os laços de fraternidade cristã, aprofunde o sentido da fé e dinamize a missão baptismal de todos os cursistas, pois sem acção missionária não existe verdadeira vida cristã.
O Movimento dos Cursos de Cristandade já deu muito a esta Arquidiocese e estou certo que ainda vai dar muito mais. Os conteúdos doutrinais poderão ser adaptados aos novos tempos, mas a metodologia é válida e os objectivos de vertebrar cristandades mantêm toda a sua actualidade. Por isso, espero que com o auxílio de Maria, Mãe da Igreja, e a protecção do Apóstolo S. Paulo, evangelizador incansável, a comemoração jubilosa dos cinquenta anos de apostolado cursilhista, dê início uma nova era em que os leigos comprometidos com Cristo sejam fermento de autênticas comunidades de vida cristã.
+José, Arcebispo de Évora
Domingo, 8 de Janeiro de 2012
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